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Impasse na UFAC: divisão de sala dedicada a projetos indígenas gera protesto

Tutora do programa e estudantes denunciam que partição compulsória de espaço conquistado há cinco anos inviabiliza as atividades e agride a permanência de estudantes originários

Portal A Tribuna - André Gonzaga. Publicada em 24/08/2026 às 20h45


O campus de Rio Branco da Universidade Federal do Acre (Ufac) é palco de um tenso embate pedagógico e administrativo que mobiliza a comunidade acadêmica. O professor Selmo Azevedo Apontes, diretor do Centro de Educação, Letras e Artes (Cela), determinou de forma unilateral a divisão física da sala utilizada pelo grupo do Programa de Educação Tutorial (PET) Conexões de Saberes Comunidades Indígenas. O espaço, cedido formalmente pela antiga chefia em 2021 e estruturado de forma qualificada pela equipe, será repartido ao meio para dar lugar a outro laboratório, ignorando as ponderações e as manifestações de contrariedade formalizadas pela coordenação.


A professora titular Aline Nicolli, tutora do grupo e atual pró-reitora de Assuntos Estudantis (Proaes) da instituição, manifestou que a partilha arbitrária inviabiliza as dinâmicas pedagógicas e compromete o acolhimento, que atende diariamente 12 bolsistas e até 12 voluntários, além de servir de ponto de apoio e reunião para toda a população estudantil indígena da universidade. Os discentes que compõem o grupo relatam sentimento de coação e desamparo diante da iminente perda física de seu território acadêmico.


A TRIBUNA tentou contato com o professor Selmo Apontes por meio de mensagens diretas de WhatsApp para obter seu posicionamento sobre a denúncia. Contudo, o gestor não retornou as tentativas de contato até o encerramento desta reportagem. A Ufac e a reitoria mantêm as páginas do jornal inteiramente abertas para manifestações e esclarecimentos futuros sobre a decisão administrativa.


O clamor da coordenação e o prejuízo direto à agenda de extensão


O ato impositivo da direção do Cela compromete de imediato uma agenda pedagógica e comunitária consolidada no Acre. Nicolli relatou que o grupo possui a sala de trabalho desde 2021, quando a antiga direção concedeu o local de forma qualificada.

Ao detalhar os bastidores do conflito e as respostas formais que recebeu do gestor após apresentar os seus argumentos contrários, ela revelou o choque com a rigidez burocrática adotada pela nova direção.

"Para minha surpresa, recebi uma resposta dizendo que ele tomaria uma decisão administrativa e encaminharia a divisão da sala, independentemente de minha manifestação", relatou.

A tutora tentou propor caminhos alternativos de conciliação. E sugeriu em despacho formal que, caso ficasse comprovado que a sua sala de trabalho era a única opção física viável para a instalação do novo laboratório, as partes poderiam discutir o remanejamento. O diretor do centro, porém, recusou o diálogo prévio e manteve as obras de partição.

Durante a assembleia extraordinária do centro, realizada na semana passada, o tema da sala foi tratado fora da pauta oficial. A professora, que cumpria outra agenda institucional, foi alertada por uma colega de que a divisão física estava sendo anunciada aos docentes.

"Essa colega acabou me dizendo para entrar na reunião porque estavam discutindo a sala. Eu entrei, manifestei que éramos contra e que não concordávamos de maneira alguma. Mas há uma postura muito irredutível da parte dele, no sentido de que a prefeitura do campus já será acionada para fazer a divisão e os estudantes terão de dividir o espaço de qualquer forma", criticou.

Nicolli fez questão de esclarecer que o desgaste administrativo decorre de uma postura isolada do Cela, isentando a administração superior do campus.

"Eu tenho plena consciência de que não é uma decisão da reitoria, que jamais concordaria com uma medida dessa natureza. No momento, respondo pela Proaes e fazemos um trabalho muito forte de acolhimento. Essa é uma decisão administrativa assumida de forma isolada pelo diretor do Cela, que nos coloca em uma situação muito delicada", explicou.

O avanço repentino sobre o espaço físico afeta o cronograma de atividades. A docente detalhou o prejuízo imediato para as ações de formação e extensão universitária.

"Toda a nossa agenda e as nossas ações acabam sofrendo o impacto direto dessa medida. Temos planejada para novembro a quinta edição de um curso de extensão, no qual costumamos receber cerca de 45 pessoas em cada encontro presencial", alertou.

O sentimento de coação estudantil e a perda de território de permanência

Os estudantes que dependem das instalações físicas da sala de trabalho manifestam profunda revolta com a perda do local de convívio social. A universitária Kirlen Lima de Souza Apurinã, originária da Terra Indígena (TI) Valparaíso, no sul do estado do Amazonas (AM), cursa bacharelado em nutrição na Ufac e atua há dois anos como bolsista do PET Indígena.

"As atividades que realizamos englobam não apenas um povo, mas várias etnias que frequentam a Universidade Federal do Acre. Nesse sentido, nós nos sentimos muito coagidos com essa situação difícil, que na verdade não é de hoje", relatou.

A discente destacou que o espaço físico funciona como uma extensão territorial de acolhimento essencial para a permanência acadêmica de quem ingressa na universidade.

"A sala do PET não representa apenas o nosso grupo, mas todos os estudantes indígenas que frequentam a Ufac. A sala recepciona a todos nós. Nossas atividades vão muito além daquele espaço, mas a sala física representa um pertencimento e um território de permanência dentro da universidade. Se não tivermos um local que seja nosso, como poderemos realizar essas ações de forma externa?", indagou.

A estudante alertou para o fato de que a restrição física prejudica os discentes vulneráveis que dependem do local para estudar e integrar as suas ações de extensão.

"Apesar de tudo, com essa situação, quem vai sofrer não é a reitoria ou a universidade, mas sim nós, os estudantes indígenas que estamos na ponta e precisamos de um espaço que nos pertença. Lutamos tanto para ter uma sala de qualidade, com todos os equipamentos, e agora querem tirar isso de nós. Eu fico muito revoltada, de verdade", desabafou Kirlen Apurinã.


A autoridade acadêmica da coordenação e o vestibular específico indígena


A mobilização contra a partição compulsória baseia-se na excelência pedagógica e no prestígio técnico conquistado pela professora Aline Nicolli. Graduada em ciências biológicas no ano de 1995, ela especializou-se em metodologia do ensino e pesquisa em biologia em 1996. Concluiu mestrado em 2001 e doutorado em educação em 2009, além de obter pós-doutorado em educação científica e tecnológica em 2011. Professora e pesquisadora de pedagogia na Ufac desde 2006, ela lidera o grupo de pesquisa Grupo de Estudos e Pesquisa sobre Cultura, Educação e Ambiente na Amazônia (Gepecac) desde 2010, atuando como docente do mestrado em ensino de ciências desde 2013 e do doutorado em educação científica desde 2021.


O reconhecimento nacional de sua competência científica ocorreu em novembro de 2025, quando Nicolli foi eleita presidente da Associação Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências (Abrapec) para o biênio de 2025 a 2027. A professora tornou-se a primeira representante da região Norte a assumir a liderança da associação, destacando em sua posse que a vitória representava o fortalecimento da pesquisa inovadora desenvolvida em meio aos desafios da realidade amazônica.


Sob a sua liderança, o PET Indígena transformou as políticas de inclusão no Acre.

Vestibular específico: o programa foi o idealizador e articulador das discussões na Ufac que, em 2024, culminaram na aprovação e criação do vestibular específico para estudantes indígenas, assegurando anualmente vagas exclusivas para estudantes de povos originários em todos os cursos de graduação oferecidos pela universidade;Atividades escolares e comunitárias: o grupo acumula mais de 50 atividades realizadas em escolas públicas e recebeu 40 comitivas escolares em sua sala;Produção acadêmica: publicou livros e atlas didáticos pedagógicos;Reconhecimento nacional: recebeu uma menção honrosa nacional outorgada pelo Comissão Executiva Nacional do Programa de Educação Tutorial (SenaPET) em virtude da qualidade das frentes de extensão.


O legado dos egressos e a atuação destacada na gestão pública


A relevância do programa reflete-se na formação de ex-estudantes que hoje atuam como protagonistas na defesa dos direitos humanos e na preservação ambiental da Amazônia. Um dos exemplos mais marcantes envolve a atuação pioneira das primas Alana e Soleane Manchineri, integrantes do grupo no ciclo iniciado em 2010, que pavimentaram uma trajetória de conquistas científicas continuada pelos irmãos Júnior, Ruwi e Wuriu Manchineri. Juntos, esses pesquisadores publicaram diversos e-books e capítulos de livros acadêmicos focados na salvaguarda cultural de suas comunidades.


De origem Manchinery, o grupo fundou em Rio Branco a associação Matpha, também denominada juridicamente como Manxinerune Tsihi Pukte Hajene. Trata-se de uma entidade civil privada de caráter filantrópico que desenvolve ações integradas de:

Assessoria jurídica;Promoção de direitos humanos;Conservação do patrimônio territorial, artístico e ecológico das populações tradicionais.


Além da articulação no terceiro setor, os antigos participantes do PET assumem postos estratégicos e de liderança na esfera pública federal. Júnior Manchineri destacou-se na coordenação da regional Alto Purus da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). Em solenidade oficial ocorrida no Acre em março de 2026, ele recebeu elogios públicos da ex-presidenta da instituição, Joenia Wapichana, que o definiu como um dos melhores coordenadores do país, consagrando a qualidade técnica de sua atuação.


A presença de antigos membros do grupo em Brasília também se consolidou na trajetória de Ketlen Apurinã, identificada em sua aldeia como Makaya Pupỹkary. Após obter aprovação no Concurso Público Nacional Unificado (CPNU), passou a integrar o corpo técnico da sede da Funai. Ela desempenha um papel de destaque na articulação de políticas públicas nacionais, confirmando o potencial de transformação e a excelência científica gerada no ambiente acadêmico da Ufac.

 
 
 

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